Definitivamente, eu não sou uma
apaixonada por bicicletas. Gosto mais da calma de um passeio a pé pela cidade
do que da adrenalina de descer as ruas com o vento na cara, em duas rodas.
Sou pela gargalhada de uma
criança, gosto de uma boa aula de yoga e raramente saio de casa sem um livro
para ler à primeira oportunidade. Dou-me com toda a gente, mas não sou de
muitas palavras, costumo ver facilmente os dois lados da questão e por isso
defender ideias não é o meu forte.
Ouço as histórias que ninguém
conta e tento encontrar palavras que lhes deem corpo e alma. E às vezes parece
que pressinto aquilo que ninguém conta porque as pessoas nem sequer sabem que
guardam em si esses mistérios. Adivinho pessoas que se escondem atrás das
janelas com medo de escancarar as suas vidas em cidades fechadas. Assisto à passerelle
louca de barulho e de fumo de veículos
que ocupam as artérias principais da cidade e vislumbro ali espaços de
encontroe de mãos dadas. Contemplo os
olhos da minha filha e vejo o brilho de um futuro limpo e luminoso.
A cidade é a amiga que me
ofereceu de prenda uma bicicleta como forma de me dar as boas-vindas. Eu tinha
acabado de chegar, de mudar de trabalho e de casa e de me deixar mudar pela
vida. Agradeci e experimentei o presente, não posso dizer que seja maluca por bicicletas,
mas respeito mais a cidade agora. E é a circular com a minha energia que
respiro o futuro, manchado de cores e cheiros de tantos ciclistas urbanos que
gritam “é possível ser feliz, fazendo os outros felizes” e regam com o seu suor
as flores novas dos passeios.
Eu não sou amante de bicicletas,
mas não deixo de me emocionar com a sua leveza de mariposas esvoaçantes.
O que é que acontece
quando uma cidade empobrecida recebe milhares de bicicletas?
The Bicycle City é uma
história de luta, determinação, idealismo e esperança que levou à transformação
de uma cidade na Nicarágua. Nos últimos 20 anos, 20mil bicicletas foram levadas
para Rivas por uma organização Não Governamental Pedals for Progress, que
recolhe bicicletas doadas nos US e as distribuiu por comunidades empobrecidas
pelo mundo.
Uma bicicleta significa
um meio de transporte livre de emissões carbónicas, barato, versátil, porque
permite percorrer quase todo o tipo de solos, exercício físico e maior
consciência da realidade circundante. Não só leva a pessoa onde deseja, seja à
escola, ao trabalho, ao gabinete ou ao parque, como ajuda a pessoa a realizar o
poder interno que tem para concretizar os seus sonhos.
Acreditamos que não foi
somente a bicicleta que mudou a vida destas pessoas, mas ela terá ajudado a
captar a energia criativa que pôs em curso o seu processo de transformação e
desenvolvimento.
Se te pedissem para imaginar como vai ser a tua
vida daqui a 5 anos, o que verias?
Antes de começares, lembra-te que ao imaginar
és livre e por isso deixa para trás o realismo, o possível e o impossível e
deixa-te levar... como a água num rio! Flui!
Depois deste pequeno exercício, quando voltares
à realidade, faz-te esta pergunta: "E porque não?"
Talvez nesta altura estejas num ponto de
partida para começares a construir algo novo, com um prazo de 5 anos!
O dia acordou solarengo, contrariamente
às expectativas. A Casa da Música foi o ponto de encontro de
ciclistas, caminhantes e corredores. Pelo meio, bandeirolas e
cartazes transportados por bicicletas alertavam para as consequências
das alterações climáticas, sobretudo as secas e os incêndios,
fenómenos mais sentidos em Portugal. Antes de o grupo se por a
caminho, foi visualizada uma apresentação, muito ilustrativa do
tema, que foi explicada por um membro da organização.
Uma avó e neta caminharam a pé para o
ponto de encontro, entretanto os dois corredores também já se
tinham feito à estrada e os ciclistas seguiram em ritmo de passeio
pela Av. da Boavista, fazendo paragens no Parque da Cidade e no
Castelo do Queijo, onde houve oportunidade de conversar com alguns
transeuntes. O grupo era pequeno, mas rico em termos de diversidade,
pois havia crianças, jovens estudantes, jovens no ativo, adultos em
família e séniores.
A banda sonora do passeio podia muito
bem ter sido “What a wonderful world”, porque o trajeto junto ao
mar e ao rio foi deveras inspirador, alimentando mais a vontade de
respeitar a natureza e os seus ritmos. As conversas giraram à volta
das bicicletas e das preocupações ambientais, com muita partilha de
vida pelo meio.
O ponto de chegada fervilhava de gente,
desde turistas a locais, que aproveitavam o dia de sol. Antes de o
grupo fazer o ponto humano que carateriza os eventos 350, houve uma
leitura expressiva de poemas que inspiravam à união entre os povos
para salvaguardar a herança comum de todos os homens: este planeta
que nos foi emprestado!
O mote foi lançado: baixar as emissões
de CO2 para os 350ppm! Não se pode cruzar os braços, é preciso
agora trabalhar para atingir esta meta!
O movimento 350 (http://www.350.org/pt) pretende alertar para as alterações climáticas. Para isso, lança o desafio de as comunidades se unirem, ligando-se entre si, de modo a criar um impacto positivo na opinião pública.
O nome do movimento remete para 350 partes por milhão de CO2. Se não conseguirmos ficar abaixo desse número, dizem os cientistas, os danos causados pelo aquecimento global que são já visíveis vão continuar e acelerar. Mas 350 é mais que um número – é um símbolo da meta para onde precisamos nos dirigir enquanto planeta.
Deixamos aqui alguns dados para refletirmos: - se continuarmos com a mesma pegada ecológica
(www.pegadaecologica.org.br), em 2030 precisaremos de 2 planetas Terra; - segundo um indicador produzido pela organização não-governamental Social
Watch, existe uma profunda assimetria entre os níveis de bem-estar básicos dos
países do hemisfério norte e sul; - por dia, 30 pessoas são consideradas falidas em Portugal.
Estes factos parecem desligados uns dos outros, mas a verdade é que
precisamos de mudar a forma como olhamos o mundo, a sociedade e cada homem. As
pessoas não são números e a natureza não está ao nosso serviço, só nos foi
emprestada. Temos de consumir menos e com mais responsabilidade, utilizar energias limpas, reutilizar o que for possível e reciclar sempre.
No início do ano, um
amigo russo a viver no Cazaquistão, cuja economia tem crescido muito graças ao
petróleo, perguntou-me se estava tudo bem comigo e com a minha família, já que
tinha ouvido falar de uma crise em Portugal e na Europa e receava o que isso
pudesse implicar (como revoluções sociais e dificuldades financeiras).
Disse-lhe que tinha ouvido corretamente. Contudo, a crise que lhe chegou através
dos jornais, tratava-se de uma crise económica fruto de gestões financeiras
narcísicas e megalómanas de banqueiros e governos, alastrando-se a todos os
níveis sociais, com pedidos de empréstimos para tudo… para ir de férias ou para
comprar algum eletrodoméstico. Naturalmente, chegou-se ao ponto em que não mais
havia dinheiro para pagar os empréstimos contraídos, numa sucessão de cartas a
caírem desde o topo até à base e da base até ao topo.
Há, então, muita conversa
à volta da crise, quase todos estão muito preocupados com os cortes e a falta
de subsídios. Claro que há claros motivos de preocupação, contudo é tempo de
oportunidade para uma transformação social, acertar com o essencial e retomar o
sentido que nos leva a realizar mais vida e maior felicidade. Como sociedade
temos estado a trilhar um caminho sem sentido de consumismo desenfreado,
poluição, exploração da natureza, muitos têm vivido orientados sufocadamente
para o trabalho e o dinheiro, de depressões, individualismo, de menos contactos
humanos diretos e pessoais, menos lazer, menos qualidade e menos realização e
por aí fora. Por isso, penso que as crises são sempre boas para desenvolver,
repensar e recriar as prioridades da pessoa, da família e da sociedade e
reinventar novos modos de respeitar e cooperar com a natureza, os seres humanos
e conectar com a Transcendência, o Universo, Deus, a Mente Cósmica, como lhe
queiram chamar.
Uma prioridade é marcada
pelo número 350! Este é o nível máximo de segurança apontado pelos cientistas
para o nível de CO2 atmosférico, ou seja, 350 partes por milhão de CO2 na
atmosfera. Partimos atualmente de cerca de 390 ppm (in www.350.org), valor que
causa problemas diretos na saúde humana, no aquecimento global, no desgelo dos
glaciares, na subida das águas e na maior probabilidade de catástrofes
naturais. Trata-se pois de evitar a completa catástrofe.
O cientista da NASA, Jim Hansen, e outros cientistas reconhecidos, sugerem
objetivos concretos:
1. parar de queimar carvão altamente poluente o mais depressa possível;
2. reduzir a desflorestação e melhorar a conservação do solo, bem como
deixar de poluir os oceanos para permitir que os chamados “sumidouros”,
sistemas naturais que absorvem o CO2, possam restabelecer-se;
3. reduzir drasticamente o uso de todos os outros tipos de combustíveis
fósseis, como o petróleo, areias asfálticas e gás natural.
Isto leva-nos à equação simplificada:
Energias Renováveis + Proteção das Florestas + Transportes Ecológicos +
Melhor Eficiência = + Vida
Alguns dirão que os
maiores efeitos de mudança estão nas mãos de estruturas governamentais, que
redigem e implementam as políticas do topo para a base, mas a consciência e o
exemplo verdadeiros têm outros meios de ação: começam numa pessoa que partilha
com a vizinha do lado, alastrando e conquistando mais e mais pessoas até que
pelo caminho ou em última instância quem faz as leis e as políticas tome
consciência de que uma nova realidade é possível.
Façamos todos, nós
começámos no nosso “quintal” aqui ao lado ;)